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Estórias do Edifício Amparo ou "Ai, Mouraria!"

O antigo Colégio dos Meninos órfãos, actual Edifício Amparo, é um dos imóveis mais notáveis de Lisboa. Depois de quase 800 anos a amparar a população carenciada da capital, é ele que agora carece de ajuda.

 

in JORNAL ROSA MARIA | 2015

Quem passeia pelo bairro já reparou com certeza na porta neomanuelina que emoldura a entrada da esquadra da PSP no número 64 da Rua da Mouraria. No que nem toda a gente repara é na modesta porta de madeira mesmo ali ao lado, mas é essa que guarda o verdadeiro tesouro: estamos a falar do Edifício Amparo, uma construção com mais de oito séculos de história encapotada pela fachada mais insuspeita de Lisboa.

Talvez seja por isso que se manteve quase secreto até há pouco tempo um dos mais importantes complexos azulejares do país.

 

Ao todo são 41 gloriosos painéis de azulejo setecentistas que revestem o átrio e a escadaria principal do edifício ao longo dos seus quatro andares, representando alguns dos mais conhecidos episódios bíblicos, do antigo ao novo testamento – uma espécie de banda-desenhada avant-garde destinada a entreter e evangelizar quem por lá passa.

 

Enquanto, por um lado, o desconhecimento do público em geral (aliado à proximidade da esquadra da polícia) permitiu manter afastados vândalos e larápios, por outro levou também a  que o edifício chegasse a uma situação de quase-abandono, visível na humidade das paredes e no apodrecimento dos estuques que sustentam os cada vez mais conhecidos azulejos bíblicos da Mouraria.

 

Se antes esta era uma jóia escondida de Lisboa, a verdade é que com a recente enchente turística na cidade o interesse neste peculiar espólio tem crescido a olhos vistos.  Manuel Ferrão, de 26 anos, trabalha na associação Renovar a Mouraria e foi o primeiro guia a fazer visitas ao local no início de 2014. Garante que na altura o edifício era praticamente desconhecido, mas que já não o é graças à divulgação feita pela própria associação e, posteriormente, por revistas como a Time Out.

 

E é assim que as visitas guiadas a turistas nacionais e estrangeiros se têm multiplicado, apesar da decadência do espaço, da falta de iluminação, de informação e de infra-estruturas. Uma porta permanentemente aberta, um acesso irrestrito e um tesouro inesperado são aparentemente a receita de um turismo que é bom para muitos, mas não para todos. Os guias enchem o peito para anunciar este “segredo da cidade”, os turistas sentem-se o Indiana Jones dos tempos modernos e o edifício… continua desamparado no seu cada vez menos solitário processo de degradação

 

O interesse dos média também  tem aumentado, particularmente depois de ter sido anunciada a transferência da vizinha Esquadra da PSP, que tão convenientemente guardava o espólio do triste fado de ser esquartejado e vendido à peça na Feira da Ladra. Mas com o aumento exponencial de visitas e o edifício desprotegido, teme-se, com razão, que este cenário se torne real. Por isso coloca-se a questão: não terá o Edifício Amparo potencial para ser um ponto turístico de excelência e um novo agente dinamizador do bairro, muito provavelmente capaz de gerar receita própria para se manter?

 

A verdade é que poucos edifícios Lisboetas resistiram incólumes e com tanta graça à passagem do tempo. Senão vejamos: a construção inicial remonta a 1273, altura em que foi mandada edificar pela mulher de D. Afonso III, para aí instalar o primeiro hospital pediátrico de Portugal. Quase três séculos depois, em 1549, parece que com intervenção de S. Francisco Xavier, o imóvel é mandado ampliar pela mulher de D. João III, para acolher o Colégio dos Meninos Órfãos  – o primeiro colégio-orfanato jesuíta de que há registo em Portugal e uma engenhosa maneira de tirar crianças à pobreza, transformando-as em missionários, educados de raiz para evangelizar o Novo Mundo.

 

Já no século XVIII, mesmo antes do grande terramoto, o edifício é restaurado e ampliado por D. José, que na altura lhe oferece ainda a sua mais espectacular característica: os painéis de azulejos rococós que hoje tantos cuidados nos merecem. É esta a história que valeu ao Edifício Amparo a classificação de imóvel de interesse público, mas nem isso parece ser suficiente para mudar a sua sorte.

 

Até agora nenhuma destas preocupações se traduziu em medidas oficiais palpáveis para a protecção, preservação ou dinamização do espaço, que é pertença da Direcção Geral do Tesouro e das Finanças. Neste momento os quatros andares do edifício são arrendados a entidades públicas por quantias simbólicas, o que pode justificar a falta de zelo do senhorio. Os dois primeiros andares estão ocupados por um centro de dia da Santa Casa da Misericórdia, o terceiro por uma dependência do INATEL e o quarto adaptado a apartamentos e arrendado a particulares. Mal ou bem, as zonas arrendadas têm sido mantidas pelos inquilinos, mas as zonas comuns do edifício, precisamente as que carecem de maiores cuidados, foram deixadas quase ao abandono.

 

Num edifício com tanta história, esperamos ansiosamente pelas cenas dos próximos capítulos.

® MARIA SARMENTO, 2020

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