Outras Vidas: Pedro Rovisco

Quem o vê no palco dificilmente esquece o olhar apaixonado, faiscante, terno, compadecido, desiludido, enraivecido, furioso… Se os olhos espelham a alma, é seguro dizer que a de Pedro Rovisco é uma alma camaleónica, exuberante, que se empresta às mais diversas sensações com a mesma leveza com que ele nos pisca o olho. E é assim que deve ser: afinal, o que esperar de um grande actor?
in BLOG DO ACTOR | 2015
Combinámos encontrar-nos com o actor em pleno centro de Nova Iorque. A cidade é monumental, com avenidas de uma largueza e arejo que não lembram à nossa velha Lisboa. Estamos em Manhattan, e caminhamos com convicção mas algum pasmo mal escondido para o número 115 da 15th Street.
É difícil perceber como é que esta alteração de escala terá afectado o jovem de 23 anos quando aqui chegou, há quase três anos, para estudar na afamadíssima escola de representação Lee Strasberg Theatre and Film Institute. Há qualquer coisa em Nova Iorque que impressiona, não só pelo tamanho, claro, mas sobretudo pela pompa desinibida com que nos acolhe. Este é, afinal de contas, um dos epicentros do mundo, e aqueles que lá vivem devem, a algum nível subconsciente, saber que estão mais perto de onde a história da civilização se escreve. E este edifício que agora temos defronte, é a escola onde estudaram alguns dos nomes sonantes da história recente do cinema. São lendas vivas como Robert deNiro, Angelina Jolie, Uma Thurman e Scarlett Johannson que ajudaram a consolidar o nome da escola e do método do seu fundador. Mas é o magnetismo que estes nomes exercem que atrai a nova geração de alunos, aspirantes a A-listers que chegam dos quatro cantos do mundo, determinados a ser o próximo dos muitos casos de sucesso com carimbo Lee Strasberg.
Depois de Daniela Ruah, Pedro Rovisco é o próximo português a tentar – e a conseguir – a sua sorte. Encontramo-lo finalmente à porta do edifício de tijolos, de sorriso escancarado e familiar. “Sabe bem falar português!”, explica. Convida-nos para uma pausa num cafezinho das redondezas, onde se percebe que tem o à-vontade dos habitués. É recebido como o filho pródigo que finalmente se digna a fazer uma visita. “Vinha cá quase todos os dias… têm saudades minhas”, brinca.
Depois de quase um ano a viver em Los Angeles, Pedro está de volta para rodar uma longa-metragem. “Ainda não posso revelar muito, mas posso dizer que me tem dado um gozo enorme trabalhar num registo diferente. É um papel que foi escrito de propósito para mim, o que me enche de orgulho! Este projecto foi desenvolvido e acarinhado durante algum tempo, é óptimo poder estar finalmente a concretizá-lo!” – diz-nos com um verdadeiro brilhozinho nos olhos.
Não é para menos. O percurso de Pedro é profundamente linear, no melhor dos sentidos. “Sempre quis ser actor”, diz, e desde sempre revelou a garra e perseverança que hoje lhe reconhecemos como imagem de marca. “Numa família inteira de médicos tive que vincar muito bem que a minha vocação era outra, e desde que pude escolher enveredei sempre pela representação”. Fez o ensino secundário na Escola Profissional de Teatro de Cascais, o que o pôs em contacto com o incontornável Carlos Avilez. Quando lhe perguntamos como é trabalhar com o encenador, enche o peito e desabafa: “é uma coisa do outro mundo...Parece que no primeiro dia já tem o espectáculo todo montado na cabeça. É super exigente e um excelente motivador, e consegue manter sempre um ambiente tranquilo e relaxado”. Colaborou com Avilez em vários projectos, inclusive na peça “O Inferno”, de Bernardo Santareno, considerada pela crítica como o melhor espectáculo de 2011.
Licenciou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, e é nessa altura que co-protagoniza a sua primeira longa-metragem, Tsuru, um filme que também não passou despercebido no meio. Estava então construída uma base sólida para um salto maior, que o leva aos Estados Unidos em 2012.
Em relação a este regresso a Nova Iorque, diz: “Adoro estar cá, mas também estou muito bem em LA! Para começar, o clima é muito mais simpático, o que me faz sentir quase em casa”. Detectámos uma pontinha de saudades? Inevitável. “Sei que de alguma forma a minha vida passará sempre por Portugal, mas por enquanto sinto que tenho aqui muito para aprender”.
